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Com a casa nas costas
Passar temporadas ou as férias em motorhomes. Aventureiros descrevem a experiência.

Largar tudo, viver na estrada, dar a volta ao mundo sem destino e data para voltar. Está aí um ideal romântico e libertário que, com certeza, passa vez ou outra na mente de pessoas de todas as gerações. Mas paralelo ao estilo mochileiro, há quem opte pelo meio termo: viajar com a casa a tiracolo. Para isso, contam com os chamados motorhomes ou motorcasas, caminhões, furgões e ônibus rodoviários que carregam no chassi uma residência móvel, equipada com banheiro, quarto, cozinha. Evolução dos antigos trailers, esse tipo de veículo é bastante comum nos Estados Unidos e na Europa, mas também faz parte da rotina de um nicho dos viajantes brasileiros, desde os mais desapegados, que passam temporadas anuais em cima da caçamba, até aqueles que gostam de reunir a família para viagens de férias com espírito aventureiro.

É assim há mais de 40 anos com o empresário Adson Marinho, 78, presidente da Fiemg Regional Pontal do Triângulo. Campista desde os anos 1970, ele adquiriu um trailer nos primeiros anos de casamento, e tempos depois, o primeiro motorhome – hoje, está na oitava casa móvel, um Volkswagen 9160. “Criei meus filhos na estrada e nos campings do sul ao norte do Brasil. É uma das atividades que considero das mais interessantes. Já ficamos mais de 40 dias viajando”, conta Adson, que tem excelentes recordações de peregrinações rumo a Porto Alegre (RS), Porto Seguro (BA), Ubatuba (SP), Caldas Novas (GO), Fortaleza (CE) e Bombinhas (SC). “Água tratada, luz, sanitários e segurança são itens essenciais nos acampamentos e postos de parada.”

A paixão pela motorcasa é tão grande que Adson já pensou em se mudar definitivamente para ela. “Só não levei a ideia adiante porPedro Vilela/Agência i7 causa de compromissos profissionais e também porque não posso me ausentar por muito tempo de Belo Horizonte”, diz. Ainda assim, ele e a mulher, Eda Lúcia, planejam viajar para Portugal e Espanha em 2016. “Vamos sair daqui com um grupo de 10 casais motorhomeiros, no total de 10 veículos alugados”, adianta.

O gosto pela vida cigana passa de geração a geração. O empresário Ernesto Zema Marinho, 37, filho de Adson, segue as rodas paternas, ao lado da mulher Valquíria, e das duas filhas. Em janeiro, ele comprou um furgão Renault Master, já equipado com cama de casal, lavabo, cozinha e mesa que vira cama. Por enquanto, a família só fez viagens próximas, à serra do Cipó e a Sete Lagoas, devido a uma das meninas ter apenas 6 meses. Mas o roteiro dos próximos meses está a todo vapor. “Nas férias de janeiro, vamos fazer a rota entre os litorais paulista e catarinense, saindo de Ubatuba até chegar a Florianópolis.” Helena, a filha de 9 anos, é a mais entusiasta: anda animadíssima para as próximas viagens. “É uma cultura da família. Tenho lembranças maravilhosas da minha infância dessas viagens, sempre em momentos de harmonia e boa convivência, de um ajudando ao outro. Quero passar isso às minhas filhas.”

No Brasil, o hábito de viagens a domicílio remonta aos anos 1970. Era a época de ouro dos trailers, que correspondiam a praticamente a totalidade dos veículos utilizados. A demanda começou a mudar na década seguinte, com o aporte dos motorhomes que, hoje, dominam o mercado. Até julho de 2015, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) registrava 8,5 mil unidades no país, a maioria delas emplacadas nos estados do Sul e do Sudeste. Minas ocupa o quinto lugar, com 317 veículos. É quase um décimo comparado ao primeiro lugar, o Rio Grande do Sul, que tem 3,05 mil carros emplacados, seguido de São Paulo, com 1,5 mil unidades

A lei da procura se repete na oferta. Cerca de 90% das montadoras de motorcasas se concentram no Rio Grande do Sul e em São Paulo, segundo a Associação Brasileira de Campismo (Abracamping). Em Minas, o principal fabricante é o empresário e engenheiro William Fernandes, há quase 40 anos no mercado. “Produzi meu primeiro carro em 1977, para uso pessoal. Os amigos gostaram da ideia e começaram a pedir que eu montasse para eles também”, recorda. De lá para cá, William calcula ter entregado cerca de 400 unidades – e não apenas casas para viajantes, mas também laboratórios móveis, estúdios de telejornalismo, food trucks. Desse total, pelo menos metade foi produzida a partir de 2007, quando o engenheiro criou a empresa Hometur, em Betim. “É um mercado instável. A procura já foi maior, mas caiu um pouco pelo aumento da violência. Em compensação, os estrangeiros que vieram para a Copa do Mundo de motorhome deram mais visibilidade ao segmento e um empurrão nas vendas”, diz.

A maior parte dos clientes de William são profissionais liberais, que podem se dar ao luxo de tirar um período sabático para viajar. Carros enxutos encabeçam a lista de preferências, caso do furgão e da caminhonete Mercedes Sprinter. “Eles têm mais rendimento, são discretos, velozes, fáceis de dirigir e cabem em qualquer lugar”, lista. Ideal para duas pessoas, o auto tem montagem a partir de 120 mil reais, incluindo cozinha, banheiro, cozinha e sala com sofá que vira cama. Para quem acha compacto demais, a opção é investir em ônibus rodoviários. Nesse caso, a montagem, em veículo usado, sai a partir de 250 mil reais; enquanto o carro zerado custa cerca de 700 mil – embora o preço final dependa do grau de refinamento do cliente, que pode chegar a pagar até 2 milhões em veículos de acabamento de luxo, com direito a mimos como área gourmet e até mesmo uma simulação de spa.

>Na dúvida, William possui os 2 modelos: uma van de 12 metros quadrados para viajar com a mulher, Maria de Fátima, e um ônibus Mercedes-Benz de 12 metros de largura e 2,60 de altura, com direito a suíte com cama de casal, 2 beliches, banheiro e mesa de cozinha com 8 lugares que também se transforma em cama. “É o meu sétimo motorhome”, orgulha-se o empresário, que já viajou com a habitação móvel para diversos estados brasileiros e também países da América do Sul – sem falar das experiências com veículo alugado pelos Estados Unidos e Europa.

Os países do Hemisfério Norte, aliás, estão milhares de milhas à frente do Brasil. Para efeito de comparação, a Associação dos Veículos Recreativos (RVIA) norte-americana registrou a média de 3,6 mil novos emplacamentos em 2014, enquanto o mercado brasileiro inscreve entre 80 a 90 unidades durante todo o ano, conforme estimativa dos organizadores da feira Brasil Motor Home Show, em Jundiaí (SP). Mesmo assim, o clima é otimista. “Acredito que o mercado de casas móveis e contêineres deve crescer ancorada por pequenas empresas. Até o fim da década, estaremos produzindo a média de 200 motorhomes ao ano”, aposta Antonio Cardoso, diretor e organizador do evento e também fabricante. De fato, o intervalo entre a primeira edição da feira, em 2013, e a segunda, em abril deste ano, registrou crescimento de 40%.

“Reunimos público de 25 mil pessoas e 93 expositores, movimentando cerca de 12 milhões de reais”, relata ele. Um dos motivos do aumento da procura é que, em 2011, o Código de Trânsito Brasileiro afrouxou um pouco as regras para os motoristas que antes precisavam ter habilitação especial. “Desde então, a categoria B da CNH, a mesma dos carros de passeio, autoriza o condutor a dirigir motorhome de até 6 mil quilos e veículo de reboque para trailer, com peso total de até 3,5 mil quilos, ambos limitados a 8 passageiros”, explica Cardoso. Outro passo rumo à popularização dos motorhomes veio do Congresso, iniciativa de ninguém menos que o deputado Tiririca (PR-SP). “Em 2013, a Comissão de Desenvolvimento Urbano também equiparou as casas móveis à habitação popular, permitindo o financiamento do programa de habitação Minha Casa, Minha Vida.”

A proposta pode soar absurda, mas faz muito sentido para a realidade dos artistas circenses, por exemplo. E também para quem optaArquivo pessoal por um estilo de vida alternativo, isto é, morar literalmente dentro do motorhome. O casal Glória Tupinambás, 34, e Renato Weil, 44, faz parte desse segundo nicho. Há 6 meses, eles trocaram uma vida confortável em um apartamento quitado no bairro Funcionários, em Belo Horizonte, para viver dentro de uma Sprinter 515, batizada de A Casa Nômade. “Já dormimos na praça da Liberdade, na praça do Papa e em outras cidades de Minas”, conta Renato. Glória diz que o chassi de 10 metros quadrados foi equipado com móveis que já faziam parte do apartamento. “Não tem beliche ou frigobar. É a nossa cama de casal, nossa geladeira, nosso fogão de 4 bocas, nossa máquina de lavar roupa”, diz ela. A motorcasa também se declara autoindependente de campings e postos de gasolinas: está equipada com placas de energia fotovoltaicas, que sustentam os equipamentos elétricos, e água do banho reciclada. “Somos ecologicamente corretos”, garante Renato.

 

Ela, jornalista, ele, fotógrafo, colecionam carimbos de 59 países no passaporte, ao longo de uma década de relacionamento. Agora, estão prestes a partir para uma expedição de 5 anos pelas 3 Américas. “Percebemos que seria o único jeito de viabilizar uma viagem de longo prazo”, diz Renato. Marcada para o início de novembro, a aventura não tem roteiro muito definido, mas a rota inaugural deve ser rumo a Ushuaia, no extremo sul da Argentina. Outros hotspots são o Pantanal brasileiro, os lagos andinos, a Rota 66 e o Grand Canyon. “Queremos ir do Ushuaia ao Alasca, mas a novidade será a América Central. O grande sonho são as pirâmides de Yucatán, no México, a única das 7 novas maravilhas do mundo que ainda não conhecemos”, sonha Glória.

Para funcionar, o plano exigiu uma mudança radical no padrão de vida do casal. Não apenas no sentido de espaço, mas também financeiro. Glória e Renato contam com o dinheiro do aluguel do apartamento e de um sítio na serra do Cipó, e a ajuda de patrocinadores para manutenção do veículo. Mesmo assim, a lógica do padrão de consumo se inverte totalmente. “Eu não compro roupa há mais de 2 anos”, revela Glória. “E não sinto falta. Aprendi a viver com muito menos.” Viajar carregando a casa também permite economizar em diárias de hospedagem e em refeições. “E ainda é mais confortável e higiênico que os hotéis mais baratinhos”, garante a jornalista.

Quem também adotou a vida de caramujo por algumas temporadas foi o engenheiro e consultor de vinhos Horácio Barros, 64, ao lado dos filhos Pedro, 28, e Natália, 31. Entre janeiro de 2012 a março de 2014, o clã percorreu 4 continentes dentro do baú de um Iveco Daily Massimo, no total de 90 mil quilômetros. “Nossa ideia era visitar as regiões vinícolas dos 24 principais países produtores de vinhos, mas acabamos aumentando a rota e conhecendo 34 territórios”, diz Horácio. De tão megalômano, o projeto ganhou o patrocínio da Iveco, que bancou a montagem do carro e a manutenção. Já a família financiou o restante dos custos, como combustível, ingressos e alimentação.

Dentro do espaço de 27 metros quadrados, as funções eram repartidas. Horácio era o piloto principal; Pedro, que é fotógrafo e publicitário, alimentou um blog com texto e imagens, além de dividir o volante com o pai; já Natália, fisioterapeuta, fez um curso rápido de vídeo para poder filmar e comandou o GPS e o contato com as vinícolas. “De um continente para o outro despachávamos o motorhome por navio, voltávamos de avião para descansar alguns dias em BH e depois viajávamos até o novo ponto de partida”, relata Horácio.

Nessas pequenas férias, até rolava o pensamento de desistir. “A convivência extremamente próxima era muito difícil. Tínhamos que ter o pensamento alinhado em tudo, em um espaço físico pequeno demais. Então, batia a dúvida. Mas as experiências pesavam mais e davam energia para continuar”, reconhece Natália. A travessia pelos desertos do Texas e da Califórnia, nos Estados Unidos, foi um dos perrengues da expedição: uma pedra quebrou o radiador justamente no país onde a Iveco não tem assistência técnica. “A solução foi dormir de dia e viajar à noite, para evitar que o motor esquentasse”, recorda Pedro.

Qual o saldo desse tipo de peregrinação? Além da integração familiar e do contato com outras culturas, nossos viajantes concordam que o aprendizado traz também o reconhecimento de novos valores. “Fiquei mais maleável e tolerante e aprendi a abrir mão do que eu queria em prol do bem comum”, diz Pedro. “A grande vantagem é a maior interação com a família, a possibilidade de compartilhar momentos com intensidade”, aponta Ernesto Marinho. “A gente aprende a ser mais organizado e viajar com menos malas”, emenda William Fernandes.

Dá até para capitalizar. No retorno da viagem, Horácio usou a expertise adquirida com a visita a 162 vinícolas para criar o Wine Truck, food truck de degustação de vinhos. Outro empreendimento é a escola itinerante Wine School. “Faço viagens de 10 dias dando cursos rápidos”, conta. Por isso, não se assuste se vir uma casa rodando pelas estradas.

Fonte: viver brasil

 

 

 

 
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